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Especialistas, Indústria 4.0

A Indústria 4.0 e as perspectivas da capacitação digital

Como a integração entre empresas, Universidades e governo será fundamental para o crescimento econômico do país

Basta pesquisar sobre transformação digital no Brasil que nos deparamos com estudos e estatísticas sobre a falta de mão-de-obra qualificada frente às novas tecnologia e às mudanças iminentes que ela repercutirá nas carreiras dos profissionais. A Indústria 4.0 está apenas começando e já enfrentamos uma defasagem sobretudo humana que passa por uma reformulação nas estratégias de treinamento das organizações assim como nas formações acadêmicas, sobretudo nas áreas STEM (Ciências – Science em inglês, Tecnologia, Engenharia e Matemática).

Com a aprovação da nova previdência e com a recuperação gradual da economia, nosso país deve voltar a atrair investimentos internos e externos. Para sustentar o crescimento econômico que se avizinha, as empresas brasileiras cada vez mais reconhecem a importância de investir sistematicamente em inovação e tecnologia para continuarem competitivas – efeito evidenciado, por exemplo, no ranking de empresas mais inovadoras publicado anualmente pelo Jornal Valor Econômico¹.

O caminho, no entanto, ainda é longo. No que tange à inovação tecnológica, o Brasil produz 3,4 patentes por milhão de habitantes segundo o Brazil Digital Report1 recém publicado em abril de 2019, sendo este um desempenho aquém de outros países do BRICS, como a Rússia, que apresenta o índice 7,9, isso sem falar nas nações desenvolvidas que encabeçam a lista, lideradas pela Alemanha com 217,6, Holanda com 207,2 e Estados Unidos com 173,1. Vale aqui a ressalva que hoje mais de 65% das solicitações de patentes no mundo atualmente são da Ásia, lideradas pela China, que só em 2017 teve 3,17 milhões de pedidos. Esse país passou à vanguarda da inovação a partir de um sistema eficiente para incentivo da propriedade intelectual, o que é surpreendente para um país que há poucos anos era muitas vezes acusado de pirataria e considerado violador de patentes.



A Confederação Nacional da Indústria2 projeta que a digitalização do processo produtivo no Brasil, que hoje é de apenas 1,6%, chegará a 21,8% nos próximos dez anos. Para citar um exemplo que vai além do óbvio, a indústria em geral caminha para reduzir o capital empregado em peças de reposição de seus maquinários por impressões 3D com mesma geometria e durabilidade. Um dos grandes desafios nesse processo será a capacitação da mão de obra. Uma projeção da consultoria Roland Berger estima um déficit de 200 milhões de trabalhadores qualificados para atender à demanda da Indústria 4.0 nos próximos 20 anos. Isso acontece porque a implementação de novos processos e tecnologias exigirá novas habilidades técnicas.

Para o Brasil, o desafio é enorme. Nosso modesto desempenho – tanto do ponto de vista de taxas de depósitos de patentes por habitantes quanto em outros indicadores que explicam por que o país caiu para a 66ª posição no Índice Global de Inovação3, ranking publicado pela Universidade Cornell, Insead e Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), pode ser explicado pelo fato de que somente 1% da população brasileira (cerca de 2 milhões de habitantes) são graduados em STEM, o que é muito aquém de países como Espanha com 4,2%, Inglaterra com 3,4% ou a Índia, que apesar de possuir 1,7% de graduados nessas áreas, em números absolutos são 22,7 milhões de pessoas. Acrescente-se a essa defasagem quantitativa de pessoas capacitadas tecnicamente, a qualitativa, devido à lacuna entre os cursos atuais e a realidade das organizações que precisam de formações específicas que muitas vezes não estão sendo atendidas pelas Universidades.



Estudo recente do Banco Mundial4 aponta que 50% dos jovens brasileiros com idade entre 19 e 25 anos estão em risco de desengajamento econômico, ou seja, em risco de ficar fora do circuito dos bons empregos no país. O mesmo Banco Mundial5 enfatiza a urgência na adoção de uma agenda para que o Brasil tenha mais eficiência produtiva com os recursos que possui. No entendimento de seus economistas, a melhora na formação de jovens e sua preparação para o mercado de trabalho é um dos itens da agenda de produtividade. Esse último relatório traz evidências que a educação no País é falha e não se traduz em aumento de produtividade. Na Turquia, por exemplo, um ano a mais na escola resulta numa elevação de US$ 4.000 no salário. Na Coreia do Sul, US$ 7.000. No Brasil, o ganho é próximo a zero. “Precisamos de uma educação de qualidade que cumpra sua missão de dar competência aos jovens”, disse a economista Rita Almeida.

A solução para esse gap qualitativo envolve necessariamente uma maior aproximação dos ambientes acadêmico, empresarial e governamental, uma vez que a inovação é considerada um fator de competitividade organizacional e critério para o desenvolvimento do país. Essa aproximação já é percebida nos países que estão se destacando no ecossistema inovativo, principalmente os europeus e asiáticos, mas apenas engatinha no nosso território. No Brasil ainda há um abismo a ser vencido, embora existam exemplos de boas iniciativas como o AUSPIN (Agência USP de Inovação) em parceria com empresas, além de outras no sentido de incentivo à transformação digital.

É preciso vencer paradigmas, criar alternativas e achar caminhos para viabilizar essa atualização na formação tecnológica, sendo um passo importante a conscientização de que só se muda um país a partir da educação, vide exemplos como da Coréia do Sul e da própria China. As graduações e extensões universitárias, por sua vez, devem contemplar uma base curricular e orientarem suas pesquisas para as necessidades das empresas e, consequentemente, da sociedade. A orientação do próprio Banco Mundial é exatamente de que a educação dos jovens seja voltada ao mercado de trabalho. Quanto ao governo, seria interessante que priorizasse os estudos de STEM, incentivando a abertura de vagas com qualidade e a parceria entre empresas e Universidades.

* Alaercio Nicoletti Junior é Gerente Corporativo de Qualidade e Melhoria Contínua, do Grupo Petrópolis, Doutor em Engenharia e colunista da Fispal Tec Digital.

Agradecimento especial ao Dr. Roberto Uchida da FIAP, pela contribuição na elaboração do texto.

Referências:

  1. Brazil Digital Report – 1ª Edição, 2019. https://www.mckinsey.com/br/our-insights/blog-made-in-brazil/brazil-digital-report
  2. Projeto Indústria 2027 – pesquisa realizada pela CNI – http://www.portaldaindustria.com.br/cni/canais/industria-2027/noticias/industria-40-saltara-de-16-para-218-das-empresas-em-uma-decada-diz-pesquisa-da-cni/
  3. Brasil cai duas posições no Índice Global de Inovação – https://www.valor.com.br/brasil/6363125/brasil-cai-duas-posicoes-no-indice-global-de-inovacao
  4. Competências e Empregos – Uma Agenda para a Juventude, 2018.  http://documents.worldbank.org/curated/pt/953891520403854615/pdf/123968-WP-PUBLIC-PORTUGUESE-P156683-CompetenciaseEmpregosUmaAgendaparaaJuventude.pdf
  5. Emprego e Crescimento: a Agenda da Produtividade. https://www.worldbank.org/pt/country/brazil/publication/brazil-productivity-skills-jobs-reports
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